sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Suicidal Tendencies


Los Angeles, começo dos anos 80. Em meio a uma avalanche de novas bandas e estilos, dentro da cena musical uma banda começa a chamar a atenção. Quatro rapazes de origem latina vindos de Venice, sudeste de Los Angeles, membros de uma classe considerada mais marginal, ávidos por fomentar uma revolução na atitude e principalmente na cabeça (entenda-se pensamento) daqueles que o cercavam começam a mostrar as garras. O nome, o estilo, as letras, os integrantes, as idéias, os shows, tudo isso capitaneado por um vocalista louco, Mike Muir, dão origem, em 1982, ao Suicidal Tendencies.
Mike Muir (Cyco Miko), Louiche Mayorga, Grant Estes e Amery Smith formam o time. Vestidos de uma forma peculiar, com suas camisas flaneladas fechadas somente no primeiro botão (o chamado "noose"), em pouco tempo os rapazes começam a arrebanhar muita gente para seus shows. Curiosamente, os próprios fãs confeccionam camisetas, bonés, calças, bermudas e espalham a ST mania pela cidade.

Maior responsável e criador da banda, Mike Muir se destaca pela imagem robusta no palco, postura agressiva mas inteligente, e aparece como um grande formador de opinião, agradando de imediato skatistas, punks, thrashers, hardcores, gangs e tudo o mais para os shows da banda. Sem esquecer sua outra marca registrada, uma bandana azul na cabeça, quase que tampando toda a visão, que fez escola.
Pendendo mais para um som skater, o ST incorpora solos de guitarra ao som, o que vem os diferenciar das outras bandas que se aproximavam deste estilo. Com o passar do tempo, as músicas vem cada vez mais a incorporar um tempero especial, bases pesadas mas swingadas, levadas bem "pulantes" e as letras cada vez mais fortes e contundentes. Trabalhando basicamente com sentimentos que não são facilmente controláveis e cuja expressão é sempre cercada de críticas pelo sistema vigente, o ST é uma banda que não tem medo de falar o que pensa, brigar pelo seu direito, e lutar por aquilo que acha que é certo. Inquietos, o ST foi e sempre será uma banda que não tem medo do futuro e vai estar sempre andando para frente. Afinal, é a isso que devemos chamar evolução, vide todos os seus trabalhos nesses 16 anos.
Criticados ao extremo e atacados pelas frentes "moralistas" principalmente pelo seu nome, é importante destacar aqui que o nome Suicidal Tendencies não quer incitar pessoas ao suicídio, mas tem origem principalmente no fato da banda ser composta de skatistas (enquanto a maioria das bandas da época aparecia circulando em Harleys – como continua sendo hoje em dia). Obviamente, qualquer ser humano que tenha praticado skate, dropado de caminhões, freqüentado half pipes e piscinas, descido por estradas e ladeiras a milhão sabe muito bem a que se refere o nome...
O primeiro disco, auto-intitulado, foi lançado. A despeito de seu começo conturbado, considerados "pior banda e maiores cuzões" pela pool da revista "Flipside" em 1992, em 1993 lançam seu primeiro trabalho pela gravadora American Lesion Music. Logo após o lançamento, os rapazes decidem fazer uma turnê pelos Estados Unidos, independentemente de terem dinheiro para viajar ou organizar qualquer coisa (o que explica o fato de voltarem extremamente mais magros do que quando saíram de casa). O que levou a isso foi o fato de que o máximo que chegaram a receber por um show foi US$ 100,00, e mais de 70% dos shows acabaram sendo "na faixa", quer dizer, pintava um show no meio do caminho e não rolava grana.

Ao chegar em casa de volta, notaram que o álbum já tinha feito efeito. O hit Institutionalized, mais conhecido lá fora como a música da Pepsi ("just one Pepsi, and she wouldn’t give it to me, just one Pepsi...") já estava rolando nas rádios. O álbum estava chamando a atenção dos ouvintes, da crítica e principalmente do P.M.R.C e da polícia da Califórnia. O seu nome e visual os tornava alvos fáceis. Há rumores inclusive de que eles chegaram a ser pressionados pelo FBI para mudar o nome da música I shot Reagan (Eu atirei em Reagan) para I shot the Devil (Eu atirei no diabo). Essa canção, juntamente com I saw your mommy e Subliminal se tornaram sua marca registrada. A MTV americana logo entrou no páreo com as rádios, começando a rolar o vídeo de Institutionalized, que chegou ao top 28 dos vídeos daquele ano. A música e o vídeo ainda apareceram e foram citados em séries de TV como Repo Man e a mais conhecida por aqui Miami Vice, nos quais a banda aparecia tocando. Após três anos do lançamento, o primeiro disco do Suicidal tendencies alcançou a marca de 150.000 cópias.
Apesar da grande repercussão da banda e do número de discos vendidos, nenhuma gravadora queria saber dos "suicycos". Nenhuma grande companhia queria o nome relacionado com uma banda chamada Suicidal Tendencies. E para aumentar os problemas, devido a violência generalizada de seus shows, a banda foi proibida de se apresentar em público por um prazo de cinco anos.
Após uma espera de dois anos, e com a compra da Caroline pela Virgin, o ST finalmente recebeu uma proposta onde eles teriam total controle artístico sobre seu material, bem como seria negociada a pena de 5 anos sem aparecimentos em público. Ele aceitaram.
Join the Army foi seu segundo disco e primeiro pela Caroline. Demorou três anos para sair, devido a vários problemas internos e catástrofes ocorridas com a banda. O guitarrista Grant Estes saiu, dando lugar ao respeitado guitarrista Rocky George e o baterista Amery Smith foi substituído por Ralph J. Herrera. Com o lançamento do novo álbum e enriquecido cada vez mais com o "skate rock", o primeiro hit, Possessed to Skate, foi acompanhado do lançamento de um vídeo onde um garoto aproveitava a viagem dos pais e detonava a casa toda com seus amigos, além de aprontar o diabo na piscina da casa (servindo como pista de skate). Curiosamente a casa era realmente de um amigo da banda, e após o vídeo eles tiveram que arrumar a casa do jeito que ela estava antes. Músicas como Two Wrongs Don’t Make a Right (but make me feel a whole lot better), Join the Army, com suas letras agressivas e cruas começavam a fazer moda, junto com todos os produtos que a banda lançava no mercado... camisetas, bonés, chaveiros, bermudas, etc., e dava início a uma nova fase dentro do hardcore, o chamado "skate core". Junto com bandas como Agnostic Front, D.R.I., Gang Green, etc. O ST despontava como um dos mais expressivos grupos dentro de seu estilo.

Com o seu terceiro disco How Will I Laugh Tomorrow When I Can’t even Smile Today, o Suicidal finalmente conseguiu um apoio maior da gravadora em termos de distribuição, propaganda e divulgação. Foi a essa altura do campeonato que os garotos (já não tão garotos assim) resolveram incluir mais um guitarrista. Com a entrada de Mike Clark um guitarrista mais concentrado nas bases das músicas, e a substituição do baixista Louiche Mayorga por Bob Heathcote, a sonoridade da banda deu uma guinada em direção a um som mais pesado (mais heavy, menos punk). Sem deixar de lado as suas mensagens, é claro. Mike Clark entrou de sola, já que no disco 70% das músicas têm sua assinatura. A produção de Mark Dodson, que na época trabalhava com o Antrax, com certeza soube explorar os contrastes e as diferentes tendencias que o Suicidal começava a experimentar, e um dos resultados desse trabalho é uma das músicas mais famosas da banda, a canção título. De balada a porrada, de porrada a balada, sem perder o pique, o disco inteiro é imperdível, recheado de canções que ajudaram a arrebanhar mais membros para a "Suicidal Family".
Com a entrada de 1989, o lançamento de dois EP’s em um só álbum Controled by Hatred / Feel Like Shit....Deja Vu, seu quarto lançamento, sem a produção de Mark Dodson, a banda procura reaproximar o som do HC original. Um som muito mais sujo, as guitarras mais baixas, solos quase inaudíveis e vocal também, o baixo e a batera extremamente crus e altos contrastam com a "heavy emotions version" de How Will I Laugh Tomorrow acústica antes de qualquer projecto MTV. Produzido pelo ST e Paul Winger, a qualidade parece não ter agradado muito aos membros da banda. O som mais heavy contrasta com a gravação, muito pobre, o que não combina definitivamente com o que almejam os Suicycos.
Como não podia deixar de ser, com a maior exposição na mídia, cada vez mais o Suicidal encontrava problemas. Tinha na sua cola o P.M.R.C., comandado por Tipper Gore (hoje a mulher do vice-presidente dos Estados Unidos) tentando a todo custo proibir apresentações da banda bem como alterar o seu nome, e boicotando a distribuição, tentando a todo custo retirar o disco das lojas, motivada pela idéia de que o nome e a música incitavam os jovens ao suicídio. A policia de Los Angeles também, com o aumento considerável do número de fãs e as brigas constantes em seus shows, considerava a banda mais uma gang do que um grupo e continuava a impedir a sua apresentação várias vezes (principalmente em lugares abertos, já que a banda continuava a atrair aquele público skatista). O choque entre os discursos e as letras empolgadas e inflamadas de Mike Muir de um lado, e a polícia e as instituições moralistas animava os fãs e atraía cada vez mais a atenção da mídia.
Lights, Camera Revolution é lançado logo na seqüência, em 1990. Uma verdadeira obra prima. Por sua causa o Suicidal é acusado de amaciar as músicas e se vender. É claro, o som não é mais aquele HC original, é nítida a evolução dos músicos, da produção, das idéias, da revolta e o amadurecimento definitivo da banda. A influência de uma levada mais funkeada em algumas músicas (com a entrada do extremamente criativo Robert Trujjilo no baixo no lugar de Stymee) esse novo estilo se deve muito mais a qualidade da gravação do que pelas músicas em si. A produção é novamente de Mark Dodson, o que parece tirar o máximo dos rapazes, tanto em termos de composição, quanto em qualidade. O que acontecia era que o HC original dava origem a uma mescla de estilos que influenciava o lugar de onde vinham os rapazes. Como o som sempre foi um reflexo do que acontecia, nada mais natural. A MTV passava os vídeos e músicas como Can’t bring me Down, Send Me your Money, Alone apareciam como mais pedidas apesar de suas fortes conotações sociais, seus protestos e sua revolta a hipocrisia. Mais ou menos nessa época, o ST dá origem também ao projeto Infectious Grooves, fundada por Mike Muir e Robert Trujjilo. Depois de lançamento do Lights e do Infectious (the plague that makes your booty moves ...is the infectious grooves), o Suicidal dá um tempinho de dois anos, mas ainda deixa rolando na TV o clipe de Can’t Bring me Down, mostrando por que os garotos foram banidos de Los Angeles no fim dos anos 80.

Após esses dois anos de descanso, o batera Ralph J. Herrera deixa a banda para se dedicar mais a família. A banda aceita, já que são todos muito amigos a essa altura, e lançam The Art of Rebellion, com Josh Freese como músico adicional, não membro do ST. Se no disco anterior o ST já era acusado de se vender, nesse.... O disco é diferente sim, mas o estilo é inconfundível. As letras, o peso, a essa altura, o ST já incorporou a capacidade de mesclar estilos sem perder a pose. Músicas diferenciadas, como Nobody Hears, I Wasn’t Meant to Feel This, Aslleep at the Wheel, I’ll Hate You Better, mostram um trabalho mais ambicioso, sem dúvida. O som menos cru, confirmou o ST como uma banda de músicos versáteis, competentes e porque não, complexos. A resposta aos que achavam que a banda estava amaciando vinha nos seus shows, cada vez mais porrada e altamente técnicos, com o som beirando a perfeição.
Após o lançamento de 1992, a Virgin, lança um "greatest hits", chamado F.N.G., item difícil de se encontrar. A compilação traz músicas dos três primeiros lançamentos do ST. São 22 músicas mais uma versão instrumental de Suicyco Mania. O álbum é acompanhado de excelentes fotos e uma matéria escrita por um jornalista da Riff Raff, Peter Grant, e é uma ótima pedida para aqueles que gostariam de conhecer a banda pela primeira vez.
Com o lançamento de Art... e as contínuas críticas e reclamações de fãs antigos, o Suicidal surpreendeu a todos de novo. Lançou Still Cyco After All This Years. 10 anos após o lançamento de seu primeiro álbum, eles resolvem regravar todas as músicas de seu primeiro disco mais duas músicas de Join the Army e uma música nova, Don’t Give Me Your Nothing com a nova formação, e produzido novamente por Mike Dodson, agora co-produzido por Mike Muir.
Como já era de se esperar após a bajulação da crítica em relação aos seus trabalhos anteriores, dessa vez ela cai matando, destacando o que chama de estagnação da banda. Já os fãs adoram. O som nota dez e a energia original do Suicidal presentes nas novas versões, solos agressivos, riffs fortes e as letras originais mostraram o que os críticos não conseguiram enxergar: que durante os dez anos passados, o ST não tinha perdido nada daquele gás original, e só evoluía a cada ano que se passava. Podia ser que para os críticos o que importava era a evolução musical de cada cd, mas para o Suicidal era importante destacar que eles continuavam os mesmos, só que melhores, e que agora os novos fãs podiam ouvir as músicas antigas do jeito que elas seriam atualmente.
Suicidal For Life até pouco tempo atrás era um álbum triste. Marcava o fim da banda, ou melhor o último disco. Josh Freese deu lugar a Jimmy de Grasso, que já havia tocado com Y&T, Allice Cooper e White Lion . O HC/Metal nova iorquino veio mais forte e mais pesado que nos álbuns anteriores, as letras mais ácidas e nitidamente mais críticas. Fuck pra todos os lados. A parte instrumental é irretocável, não há uma música que não se destaque. Todos quebram tudo (parece que em um último esforço eles queriam deixar mesmo o melhor de cada um – pelo menos em termos técnicos). Apesar dos discos anteriores mostrarem nitidamente os músicos na capa, o SFL mostrava só Mike Muir. Dica para os fãs de que algo estava ruim lá dentro. Quem foi ao Monsters of Rock teve a chance de conferir essa turnê ao vivo.
Apesar do clima de brincadeira em cima do palco, parece que as tendências pessoais estavam tomando rumos diferentes. Após alguns boatos, o ST finalmente marcou o que consideraria seu último show, no Whisky. Conta-se que o som estava horrível e haviam confusões tanto na platéia quanto no palco, desanimado e sem tesão. A esta altura, Trujjilo e Muir já se dedicavam bastante ao Infectious, que crescia e se tornava uma sombra do Suicidal – onde tocava um, tocava o outro, enquanto Mike também já planejava lançar alguma coisa com o Cyco Miko, um projeto mais punk rock, com Steve Jones na guitarra.
Após 3 anos de descanso, eis que surge a notícia de que o ST estava sendo reativado. Tudo começou com o lançamento de Prime Cuts, pela Epic. Na verdade, o ST não queria lançar esse disco, visto que a intenção era lançar um disco completo. Como constava ainda um disco no contrato, a Sony (EPIC) se aproveitou e lançou essa coletânea incluindo duas músicas novas, Berserke Feeding the Addiction já mostravam o que estava por vir. Mais Join the New Army e Go Skate e se podia ter a certeza que o ST estava de volta.
Dessa vez, Mike Muir e Mike Clark tinham a companhia de novos integrantes. Na outra guitarra, Dean Pleasants. Josh Paul entrou no lugar de Rob Trujjilo no baixo e Brooks Wackerman entrou no lugar de Jimmy de Grasso. Numa entrevista a revista Hard francesa, ao ser perguntado sobre os motivos da debandada, Mike respondeu um tanto quanto secamente que o importante era que o ST estava de volta e não importava quem saira, e sim quem estava ocupando os seus lugares. O ST então começava a sua nova turnê pelo mundo todo. Aproveitaram a turnê mundial para divulgar Family and Friends, um cd com bandas de Venice e cercanias, com duas músicas do Suicidal, duas do Infectious, duas com os dois juntos e músicas de outras bandas. O som está diferente, é claro, mas o baixo continua com o mesmo peso, a batera também.

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